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JORNAL AMATA
Desde: 13/06/2001      Publicadas: 1018      Atualização: 08/09/2017

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 Opinião

  02/07/2010
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E depois de Belo Monte?


Tarcísio Feitosa
Ainda sou do grupo que sonha com a desistência do governo brasileiro em construir esse monstro que irá destruir o rio Xingu e mudar a coloração de suas águas verde-esmeralda para o tom barrento.
Mas, entendo que o pouco tempo de democracia que vivemos ainda não é suficiente para tomar decisões que irão afetar as futuras gerações do Xingu e do Pará, afinal de contas, poucas vezes nos lembramos dos netos e bisnetos. E para completar a euforia ainda estamos no clima eleitoral onde iremos escolher presidente, senadores, deputados federais, governador e deputados estaduais.

E depois de Belo Monte?


Além de tudo isso temos o anúncio de 4 bilhões de reais em investimentos, destinados a uma região que ficou abandonada durante 30 anos. Este valor é algo surpreendente para quem lutou durante três décadas para ter energia, e para quem já levou até uma semana de viagem para chegar à capital, por causa dos atoleiros, na famosa Transamazônica, ou quem teve que fretar avião para Belém, à procura de ajuda médica.
Um dado que chama a atenção é o valor das turbinas que serão compradas pelo construtor da obra: entre 6 e 7 bilhões, ou seja, depois de 30 anos sofrendo, vendo crianças e velhos morrerem a míngua por falta de atendimento médico, fomos "valorizados" à metade dos preços das turbinas, um investimento suntuoso de R$ 3,3 bilhões para alavancar o desenvolvimento da região. Já é um avanço para uma democracia recém-nascida e uma região que nunca viu um investimento deste.
Sonho é sonho, então vamos ao momento presente: ao real, anunciado o licenciamento, as autorizações, as negociações avançam, a previsão da chegada de 80 mil pessoas, sendo sua maioria homens que irão trabalhar e morar na região, a fala do Senhor Presidente, da Senhora Governadora, dos deputados vindos dos movimentos sociais da região, mostram que é questão de horas. Horas, dias, anos... uma média de 15 a 20 anos para o terminar a obra. E aí? o que vai acontecer?
Pergunto isso, pois a região é uma grande produtora de cacau, tem florestas, uma agricultura forte, uma pecuária com alto potencial de crescimento, ou seja, a base econômica de qualquer região desenvolvida no mundo está aqui. Se a região se meter nas negociações de REDD , por exemplo, podemos ofertar floresta protegida garantida pelo poder público para receber apoio financeiro para não liberar carbono.
Mas, não será um investimento da metade do valor das turbinas que irá garantir o desenvolvimento para as próximas gerações ou para o fim destas. Hoje temos a responsabilidade de negociar com as empresas e governos que irão chegar na região para construir uma das maiores barragens do mundo.
Algumas coisas são urgentes antes da chegada das 80 mil pessoas, principalmente se queremos ser uma potencia econômica depois da passagem do ciclo da barragem.
Temos que cuidar das nossas florestas, demarcar e proteger as terras indígenas, reservas extrativistas, floresta nacional, estação ecológica e parque nacional e garantir que elas tenham suas funções sociais ativadas; assim, como temos um parque com belezas cênicas sem não dispomos de um bom hotel para hospedar turistas? Como ter uma reserva extrativista se o produto que ela gera não entra no mercado? E como ter uma estação ecológica se não temos pesquisadores conhecendo nossas florestas, seus valores e sua biodiversidade, que será a moeda do futuro?
E aí, como ter fazendas de gado na conversão de uma cabeça de gado para dez mil metros quadrados? Ou seja, ainda vivemos no período da idade média da pecuária na região, Temos que avançar e negociar com o governo assistência técnica para garantir um melhor aproveitamento do pasto já existente?
Temos muitas florestas, ainda sem destinação, uma média de quase 4 milhões de hectares, se somarmos a Gleba Pracupi, Bacajai e Macapixi. Acontece que nossas empresas florestais (madeireiras) estão todas fechadas, com falta de investimento e assessoria para conduzir um bom manejo.
Nenhuma das nossas áreas de florestas sendo manejadas hoje resiste a uma investigação ambiental e florestal mínima que possa garantir o bom uso da floresta. Daí as várias operações de combate aos crimes florestais e ambientais que acabaram com as atividades madeireiras na região. Então fica a pergunta... como podemos transformar nossas empresas madeireiras hoje em verdadeiras empresas florestais capazes de conduzir um bom manejo da floresta?
E por que não oferecer subsídios para instalação de uma empresa que processe o nosso cacau, inclusive o cacau orgânico já certificado para exportar chocolate e gerar emprego?
É, temos que pensar no pós Belo Monte, pois 80 mil pessoas fazem um estrago danado em qualquer lugar do mundo.
  Autor:   Tarcisio Feitosa


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